POR REGINA DELL'ARINGA
Você nunca teve de se preocupar com a balança. Ao contrário, sempre se sentiu de bem com a vida, sem a ameaça de doenças cardiovasculares, hipertensão arterial, diabetes, ou qualquer outro problema relacionado ao sobrepeso, afinal, ao longo de toda a vida, conseguiu manter o peso indicado como o ideal para a sua altura e idade. Mas, há pouco mais de um mês, os pesquisadores da Clínica Mayo (EUA) divulgaram uma descoberta, que, para muita gente, caiu como uma bomba: a obesidade do peso normal.
A notícia pode parecer contraditória, entretanto foi o resultado a que os cientistas chegaram após um estudo, que avaliou 2.127 pessoas com IMC (o famoso Índice de Massa Corporal) até então considerado adequado. O IMC, muito usado pelos médicos para avaliar grupos de pessoas, é uma fórmula que indica o estado nutricional do indivíduo, desde a desnutrição grave até a obesidade, relacionando o peso à altura por meio de uma equação. Se o resultado for entre 18,5 e 24,9, o peso é considerado normal (veja quadro Como calcular o IMC).
Músculo X gordura localizada O que o estudo norte-americano demonstrou é que essa conta não é tão simples como se imaginava: o IMC não diferencia a massa muscular da gordura. E como a gordura é mais leve do que a massa muscular, a substituição de músculos por tecido adiposo pode acontecer sem alterações no peso. Foi exatamente isso que os pesquisadores constataram: mais da metade das pessoas analisadas tinha excesso de gordura corporal.
“Um fisiculturista, por exemplo, pode ser classificado como ‘obeso’, pois o seu elevado peso corporal pode ter aumentado bastante o IMC. Entretanto, ele estaria longe de ser ‘gordo’, sendo, na verdade, muito ‘forte’, já que tem grande massa magra, e não massa gorda. Por outro lado, pessoas com peso considerado adequado podem ter perda muscular (massa magra), mas manter uma alta taxa de gordura para seu tipo físico. Nesse caso, apesar de o aparente peso adequado dar uma tranqüilidade ilusória, essa quantidade de gordura acima do normal poderá trazer todos os problemas de saúde que um obeso teria”, explica o médico esportivo e coordenador do curso de Treinamento Personalizado do Centro de Estudos de Fisiologia do Exercício da Unifesp, Fernando Torres.
De repente, gorda Renata Maia, publicitária de uma famosa academia de São Paulo, 25 anos, 1,65 m, 59 kg, jamais precisou brigar com os ponteiros da balança e, até pouco tempo atrás, acreditava ser dona de uma saúde invejável. Mas, ao realizar o exame de bioimpedância (usado para avaliar a composição corporal do paciente) no final do ano passado, um susto: descobriu que estava com 30% de gordura no corpo.
“Fiz um check-up há alguns meses e deu que meu colesterol estava muito alto para uma pessoa da minha idade. Nunca poderia imaginar que isso fosse acontecer comigo, porque nunca fiquei acima do meu peso, não tenho facilidade para engordar. Estava com 61 kg. Mas o médico recomendou que fizesse atividade física e cortasse, ao máximo, frituras e gorduras. Comecei a fazer dieta e passei a fazer duas horas de exercícios por dia. Antes, treinava, no máximo, uma hora”, conta a publicitária.
"NUNCA PODERIA IMAGINAR QUE ISSO FOSSE ACONTECER COMIGO, PORQUE NUNCA FIQUEI ACIMA DO MEU PESO, NÃO TENHO FACILIDADE PARA ENGORDAR"RENATA MAIA, DIAGNOSTICADA COM OBESIDADE DO PESO NORMAL
Para a médica do Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Gláucia Duarte, Renata é o típico exemplo de paciente propenso à obesidade de peso normal, pois está dentro da faixa estabelecida como normal, mas, por algum motivo, apresenta aumento de adiposidade corporal.
A endocrinologista do HC faz um alerta: “Por meio desse estudo, indivíduos que visualmente estão adequados podem, na verdade, desenvolver doenças associadas à obesidade ou à síndrome metabólica, caso comprovada a obesidade visceral. O principal risco é o desenvolvimento de doenças cardiovasculares — aumento do nível de triglicerídeos, acelerando processos de aterosclerose e maiores chances da ocorrência de eventos como infarto agudo do miocárdio ou acidente vascular cerebral (AVC) — e metabólicas — como alterações no equilíbrio da glicemia, favorecendo fatores de risco para o diabetes — mesmo na presença de IMC normal”.
Renata Maia permitiu que acompanhássemos seu retorno ao médico, para checar se a dieta e os exercícios surtiram resultado. O novo exame de bioimpedância revelou que tanto esforço valeu a pena: a taxa de gordura corporal em Renata caiu de 30% para 27%. Para manter a conquista, ela deverá continuar o novo estilo de vida.
NÃO EXISTE NENHUMA SUBSTÂNCIA ESPECÍFICA PARA EVITAR O ACÚMULO DE GORDURA NO CORPO. A DIETA DEVE SER BALANCEADA E BASEADA NA INGESTÃO DE ALIMENTOS EM SUA FORMA NATURAL, RICOS EM FIBRAS E POBRES EM GORDURA
Avalie seu corpo Como não existe outra forma de se calcular o IMC e este índice não considera a distribuição da gordura corporal, os médicos recomendam que se utilize não apenas o IMC, mas outros métodos capazes de avaliar com mais precisão a massa adiposa e a massa de tecidos magros.
Um desses métodos é a medição da circunferência abdominal, uma vez que essa medida foi conhecida como indicador de propensão a doenças crônicas. O padrão para a América Latina é menor ou igual a 80 cm para mulher e menor ou igual a 94 cm para homem. Entretanto, existem outras formas mais elaboradas de se medir a porcentagem de gordura corporal como a bioimpedância (por meio de uma corrente elétrica de baixa intensidade pelo corpo humano, faz-se a análise da massa magra e da massa gorda do indivíduo) e a ultra-sonografia abdominal.
“Nenhum método isolado é válido, já que lidamos com indivíduos diferentes. Existem fatores genéticos e, principalmente, ambientais associados ao aumento da obesidade, como a alimentação rica em gordura e estilo de vida sedentário. É preciso utilizar métodos de avaliação mais específicos para se obter uma análise da composição corporal mais apurada, mais precisa. Os mais acessíveis são a bioimpedância e a mensuração de dobras cutâneas”, lembra Gláucia Duarte.
COMO CALCULAR O IMCO cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC) é único. Por isso, é bastante usado em triagens de grandes massas populacionais, como pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Para calcular o IMC (Índice de Massa Corporal), deve-se dividir o peso (em quilos) pela altura (em metros) ao quadrado. Por exemplo: para uma pessoa com 1,60 m de altura e 60 kg, o IMC é 60/(1,60 x 1,60), ou seja, 23,4. Veja, abaixo, os padrões para a avaliação do estado nutricional segundo o IMC:
Por ser um índice indicativo de obesidade, o IMC tem sido utilizado para direcionar políticas de saúde, inclusive preventivas, pois se sabe que o excesso de peso traz ao indivíduo diversos problemas associados a esse quadro, como doenças cardiovasculares (infarto, acidente vascular cerebral e hipertensão), diabetes, hiperlipidemia (concentração elevada de gordura no sangue) e, até mesmo, câncer.
Qual o remédio? A alimentação ainda é a melhor forma de prevenir a obesidade de peso normal. No entanto, “não existe nenhum alimento específico para evitar o acúmulo de gordura no corpo. A alimentação como um todo deve ser balanceada e baseada na ingestão de alimentos em sua forma natural, ricos em fibras e pobres em gordura”, afirma a nutricionista da USP, Lara Natacci Cunha.
Lara lembra que é importante complementar a alimentação balanceada com uma atividade física regular. Segundo a nutricionista, para ficarmos longe dos perigos dos altos índices de gordura corporal e, assim, da obesidade do peso normal, é preciso seguir algumas orientações básicas como:
reduzir o consumo de alimentos e bebidas concentrados, gorduras, açúcar, condimentos e sal;
utilizar pequenas quantidades de óleo vegetal ao preparar os alimentos;
reduzir a quantidade de sal nos preparos dos alimentos e evitar o uso do saleiro à mesa;
reduzir ao máximo o consumo de “comidas prontas” e produtos industrializados em geral;
seguir uma alimentação fracionada, pelo menos de três em três horas;
evitar “pular” refeições importantes (café-da-manhã, almoço e jantar) e procurar fazê-las sempre em um lugar tranqüilo, longe da TV e do computador;
ingerir bastante líquido, preferencialmente água, mas sempre no intervalo das refeições;
manter as fibras na ingestão dietética diária, para assegurar um bom funcionamento intestinal e auxiliar na prevenção e tratamento de doenças como o aumento do colesterol ruim;
manter as fibras na ingestão dietética diária, para assegurar um bom funcionamento intestinal e auxiliar na prevenção e tratamento de doenças como o aumento do colesterol ruim;
nunca dormir logo após uma refeição;
variar, o máximo possível, o cardápio nas refeições;
praticar exercícios físicos com freqüência .
Você nunca teve de se preocupar com a balança. Ao contrário, sempre se sentiu de bem com a vida, sem a ameaça de doenças cardiovasculares, hipertensão arterial, diabetes, ou qualquer outro problema relacionado ao sobrepeso, afinal, ao longo de toda a vida, conseguiu manter o peso indicado como o ideal para a sua altura e idade. Mas, há pouco mais de um mês, os pesquisadores da Clínica Mayo (EUA) divulgaram uma descoberta, que, para muita gente, caiu como uma bomba: a obesidade do peso normal.
A notícia pode parecer contraditória, entretanto foi o resultado a que os cientistas chegaram após um estudo, que avaliou 2.127 pessoas com IMC (o famoso Índice de Massa Corporal) até então considerado adequado. O IMC, muito usado pelos médicos para avaliar grupos de pessoas, é uma fórmula que indica o estado nutricional do indivíduo, desde a desnutrição grave até a obesidade, relacionando o peso à altura por meio de uma equação. Se o resultado for entre 18,5 e 24,9, o peso é considerado normal (veja quadro Como calcular o IMC).
Músculo X gordura localizada O que o estudo norte-americano demonstrou é que essa conta não é tão simples como se imaginava: o IMC não diferencia a massa muscular da gordura. E como a gordura é mais leve do que a massa muscular, a substituição de músculos por tecido adiposo pode acontecer sem alterações no peso. Foi exatamente isso que os pesquisadores constataram: mais da metade das pessoas analisadas tinha excesso de gordura corporal.
“Um fisiculturista, por exemplo, pode ser classificado como ‘obeso’, pois o seu elevado peso corporal pode ter aumentado bastante o IMC. Entretanto, ele estaria longe de ser ‘gordo’, sendo, na verdade, muito ‘forte’, já que tem grande massa magra, e não massa gorda. Por outro lado, pessoas com peso considerado adequado podem ter perda muscular (massa magra), mas manter uma alta taxa de gordura para seu tipo físico. Nesse caso, apesar de o aparente peso adequado dar uma tranqüilidade ilusória, essa quantidade de gordura acima do normal poderá trazer todos os problemas de saúde que um obeso teria”, explica o médico esportivo e coordenador do curso de Treinamento Personalizado do Centro de Estudos de Fisiologia do Exercício da Unifesp, Fernando Torres.
De repente, gorda Renata Maia, publicitária de uma famosa academia de São Paulo, 25 anos, 1,65 m, 59 kg, jamais precisou brigar com os ponteiros da balança e, até pouco tempo atrás, acreditava ser dona de uma saúde invejável. Mas, ao realizar o exame de bioimpedância (usado para avaliar a composição corporal do paciente) no final do ano passado, um susto: descobriu que estava com 30% de gordura no corpo.
“Fiz um check-up há alguns meses e deu que meu colesterol estava muito alto para uma pessoa da minha idade. Nunca poderia imaginar que isso fosse acontecer comigo, porque nunca fiquei acima do meu peso, não tenho facilidade para engordar. Estava com 61 kg. Mas o médico recomendou que fizesse atividade física e cortasse, ao máximo, frituras e gorduras. Comecei a fazer dieta e passei a fazer duas horas de exercícios por dia. Antes, treinava, no máximo, uma hora”, conta a publicitária.
"NUNCA PODERIA IMAGINAR QUE ISSO FOSSE ACONTECER COMIGO, PORQUE NUNCA FIQUEI ACIMA DO MEU PESO, NÃO TENHO FACILIDADE PARA ENGORDAR"RENATA MAIA, DIAGNOSTICADA COM OBESIDADE DO PESO NORMAL
Para a médica do Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Gláucia Duarte, Renata é o típico exemplo de paciente propenso à obesidade de peso normal, pois está dentro da faixa estabelecida como normal, mas, por algum motivo, apresenta aumento de adiposidade corporal.
A endocrinologista do HC faz um alerta: “Por meio desse estudo, indivíduos que visualmente estão adequados podem, na verdade, desenvolver doenças associadas à obesidade ou à síndrome metabólica, caso comprovada a obesidade visceral. O principal risco é o desenvolvimento de doenças cardiovasculares — aumento do nível de triglicerídeos, acelerando processos de aterosclerose e maiores chances da ocorrência de eventos como infarto agudo do miocárdio ou acidente vascular cerebral (AVC) — e metabólicas — como alterações no equilíbrio da glicemia, favorecendo fatores de risco para o diabetes — mesmo na presença de IMC normal”.
Renata Maia permitiu que acompanhássemos seu retorno ao médico, para checar se a dieta e os exercícios surtiram resultado. O novo exame de bioimpedância revelou que tanto esforço valeu a pena: a taxa de gordura corporal em Renata caiu de 30% para 27%. Para manter a conquista, ela deverá continuar o novo estilo de vida.
NÃO EXISTE NENHUMA SUBSTÂNCIA ESPECÍFICA PARA EVITAR O ACÚMULO DE GORDURA NO CORPO. A DIETA DEVE SER BALANCEADA E BASEADA NA INGESTÃO DE ALIMENTOS EM SUA FORMA NATURAL, RICOS EM FIBRAS E POBRES EM GORDURA
Avalie seu corpo Como não existe outra forma de se calcular o IMC e este índice não considera a distribuição da gordura corporal, os médicos recomendam que se utilize não apenas o IMC, mas outros métodos capazes de avaliar com mais precisão a massa adiposa e a massa de tecidos magros.
Um desses métodos é a medição da circunferência abdominal, uma vez que essa medida foi conhecida como indicador de propensão a doenças crônicas. O padrão para a América Latina é menor ou igual a 80 cm para mulher e menor ou igual a 94 cm para homem. Entretanto, existem outras formas mais elaboradas de se medir a porcentagem de gordura corporal como a bioimpedância (por meio de uma corrente elétrica de baixa intensidade pelo corpo humano, faz-se a análise da massa magra e da massa gorda do indivíduo) e a ultra-sonografia abdominal.
“Nenhum método isolado é válido, já que lidamos com indivíduos diferentes. Existem fatores genéticos e, principalmente, ambientais associados ao aumento da obesidade, como a alimentação rica em gordura e estilo de vida sedentário. É preciso utilizar métodos de avaliação mais específicos para se obter uma análise da composição corporal mais apurada, mais precisa. Os mais acessíveis são a bioimpedância e a mensuração de dobras cutâneas”, lembra Gláucia Duarte.
COMO CALCULAR O IMCO cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC) é único. Por isso, é bastante usado em triagens de grandes massas populacionais, como pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Para calcular o IMC (Índice de Massa Corporal), deve-se dividir o peso (em quilos) pela altura (em metros) ao quadrado. Por exemplo: para uma pessoa com 1,60 m de altura e 60 kg, o IMC é 60/(1,60 x 1,60), ou seja, 23,4. Veja, abaixo, os padrões para a avaliação do estado nutricional segundo o IMC:
Por ser um índice indicativo de obesidade, o IMC tem sido utilizado para direcionar políticas de saúde, inclusive preventivas, pois se sabe que o excesso de peso traz ao indivíduo diversos problemas associados a esse quadro, como doenças cardiovasculares (infarto, acidente vascular cerebral e hipertensão), diabetes, hiperlipidemia (concentração elevada de gordura no sangue) e, até mesmo, câncer.
Qual o remédio? A alimentação ainda é a melhor forma de prevenir a obesidade de peso normal. No entanto, “não existe nenhum alimento específico para evitar o acúmulo de gordura no corpo. A alimentação como um todo deve ser balanceada e baseada na ingestão de alimentos em sua forma natural, ricos em fibras e pobres em gordura”, afirma a nutricionista da USP, Lara Natacci Cunha.
Lara lembra que é importante complementar a alimentação balanceada com uma atividade física regular. Segundo a nutricionista, para ficarmos longe dos perigos dos altos índices de gordura corporal e, assim, da obesidade do peso normal, é preciso seguir algumas orientações básicas como:
reduzir o consumo de alimentos e bebidas concentrados, gorduras, açúcar, condimentos e sal;
utilizar pequenas quantidades de óleo vegetal ao preparar os alimentos;
reduzir a quantidade de sal nos preparos dos alimentos e evitar o uso do saleiro à mesa;
reduzir ao máximo o consumo de “comidas prontas” e produtos industrializados em geral;
seguir uma alimentação fracionada, pelo menos de três em três horas;
evitar “pular” refeições importantes (café-da-manhã, almoço e jantar) e procurar fazê-las sempre em um lugar tranqüilo, longe da TV e do computador;
ingerir bastante líquido, preferencialmente água, mas sempre no intervalo das refeições;
manter as fibras na ingestão dietética diária, para assegurar um bom funcionamento intestinal e auxiliar na prevenção e tratamento de doenças como o aumento do colesterol ruim;
manter as fibras na ingestão dietética diária, para assegurar um bom funcionamento intestinal e auxiliar na prevenção e tratamento de doenças como o aumento do colesterol ruim;
nunca dormir logo após uma refeição;
variar, o máximo possível, o cardápio nas refeições;
praticar exercícios físicos com freqüência .
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